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setembro 12, 2009

Um erro de «A arte de pensar»: Basear a «invalidade» de um silogismo num acidente da existência material (Crítica de Manuais Escolares)

No manual português de Filosofia do 11º ano «A arte de pensar» lê-se o seguinte:


«Classes vazias»


«Considere-se o seguinte argumento:


Todas as fadas são simpáticas.  


 Logo há fadas simpáticas .


«Como vimos a premissa é verdadeira, embora não o pareça. Mas a conclusão é evidentemente falsa. Logo o argumento é inválido (Aires Almeida, Célia Teixeira, Desidério Murcho, Paula Mateus, Pedro Galvão, A arte de pensar, Didáctica Editora, pag 62; o bold é nosso).


Crítica: Depois de ter postulado que «um argumento dedutivo é válido quando é impossível ter premissas verdadeiras e conclusão falsa» (pag 14), este manual contradiz-se. Como é que, sendo verdadeira a premissa «Todas as fadas são simpáticas» pode ser falsa a conclusão «Logo há fadas simpáticas» ( ou : «Logo algumas fadas são simpáticas»)?


Não pode. Assim, o argumento (silogismo) é necessariamente válido. O que sucede é que os autores do manual «A arte de pensar» descem a escada obscura de um raciocínio falacioso: saltam da essência para a existência, isto é, passam do raciocínio dedutivo – plano da validade ou verdade formal do pensamento – para a indução que lhes  sugere, pelo testemunho dos sentidos, que não existem fadas - plano da verdade material. Violam as próprias regras da lógica dedutiva que proclamaram, recorrendo ao argumento indutivo da «classe vazia» (uma classe sem elementos: não há fadas, logo a classe das fadas é vazia…) Passam do essencial ao acidental que o contradiz e produzem um raciocínio que é uma amálgama, uma incoerência.


E são estes autores que repetem incansavelmente que «validade e invalidade nada têm a ver com verdade e não verdade…» ! Mas como, se para negarem a validade a este silogismo, tiveram de descer ao plano da verdade material perceptível? Afinal, acabam por declarar a invalidade com base na não verdade (inexistência) material. O que equivale a dizer o que sempre postulamos: em lógica, inválido é não verdadeiro no plano abstracto do raciocínio;  e válido é verdadeiro, em termos abstractos de regras do pensamento (Exemplo: a regra válida "a>b, então b<a " é verdadeira). O válido é uma espécie dentro do género verdadeiro.


 Ignorantes da dialéctica, que hierarquiza os conceitos em géneros e espécies de forma holística e discriminada, os autores de «A arte de pensar» nem se dão conta do erro que cometem ao proclamar a dissociação entre válido e verdadeiro. Isto é mais um exemplo de como a lógica, inserida no programa de 11º ano de Filosofia no ensino secundário em Portugal, é mal explicada nos manuais em voga, repletos de confusões.


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f.limpo.queiroz@sapo.pt


© (Direitos de autor para Francisco Limpo de Faria Queiroz)


 

Publicado por f.limpo.queiroz às setembro 12, 2009 09:11 PM

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