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março 02, 2008

Erros teóricos no "Razão e Diálogo" de J. Neves Vicente (Crítica de Manuais Escolares - XXV)

Sem embargo de ser um manual que serve para lecionar o programa de filosofia do ensino secundário em Portugal, o livro "Razão e Diálogo" de J.Neves Vicente, contém um razoável número de erros teóricos. Vejamos alguns.

NÃO HÁ UM SÓ DOGMATISMO , MAS DOIS

Neves Vicente oferece a seguinte definição de dogmatismo:

«O dogmatismo corresponde, antes de mais, à crença espontânea do ser humano na validade do conhecimento. Pressupõe inadvertidamente que a realidade é como a vemos e que a podemos conhecer tal como ela é e a partir da intuição sensível. Do ponto de vista do senso comum, não há limires ao conhecimento humano.» (J.Neves Vicente, Razão e Diálogo, Porto Editora, pag 172; o negrito é nosso)

Eis uma definição equívoca de dogmatismo, definição que abarca apenas uma das suas vertentes: o dogmatismo ingénuo. Existe, para além desse, um dogmatismo crítico, filosófico e científico, que se estruturou rebatendo a crença espontânea, através da dúvida e da reflexão profunda. As teorias de Platão, Hegel, Schopenhauer e tantas outras são dogmatismos críticos. A teoria química da tabela periódica dos elementos é um dogmatismo crítico.

MARX E FREUD NÃO DESCREDIBILIZARAM A RACIONALIDADE, PELO CONTRÁRIO

Escreveu J. Neves Vicente:

«Os filósofos da suspeita (Karl Marx, F.Nietzsche e S.Freud) contam-se entre os autores que mais contribuiram para o descrédito da racionalidade, para o abandono das filosofias da consciência e, consequentemente, para a crise da teoria do conhecimento. A consciência passa a ser vista como um fenómeno derivado, não podendo por isso ser tomada como base inquestionável e originária do conhecimento» (J.Neves Vicente, Razão e Diálogo, Porto Editora, pag. 174)

O erro de Neves Vicente consiste em interpretar racionalidade como pensamento de uma consciência individual. O termo racionalidade é muito mais amplo: há uma razão transpessoal e transhumana, uma racionalidade supra-individual, que tanto Marx como Freud captaram muito bem em determinados aspectos.

O marxismo é, até, acusado de ser um hiper-racionalismo: explica racionalmente a evolução das sociedades e o surgimento das diferentes morais, mostrando como o desenvolvimento das forças produtivas determina as relações de produção (lucros e salários, formas de propriedade, etc) e, num nível mais alto, a super-estrutura (ideologia da classe dominante e instituições como o governo, parlamento, exército, igrejas, escolas, etc). Portanto, Marx não descredibilizou a racionalidade, revelou uma nova faceta desta.

O freudismo lançou luz, de forma absolutamente racional, sobre o psiquismo humano, revelando a sua estrutura triádica - infra-ego ou id, super-ego e ego - , interpretando os sonhos como expressão de desejos recalcados, etc. Freud não descredibilizou a racionalidade, introduziu-a e desenvolveu-a no poço escuro da psicologia.

CONHECER E SABER É O MESMO


Neves Vicente estabelece uma distinção, de facto inexistente, entre conhecer e saber, num fraco exercício de análise da linguagem:

«2. Conhecer e saber

«A distinção entre saber e conhecer não é fácil de estabelecer. Com muita frequência aparecem como sinónimos: "saber científico" ou "conhecimento científico" , "conhecimento empírico" ou "saber empírico". Em certas condições frásicas assumem significados diferentes: "S sabe que Durão Barroso é o primeiro-ministro" não significa o mesmo que "S conhece o primeiro-ministro Durão Barroso" (J.Neves Vicente, Razão e Diálogo, pag. 159).

Há, neste último exemplo, uma falácia. Na verdade a frase "S sabe que Durão Barroso é o primeiro-ministro" significa o mesmo que a frase "S. conhece que o primeiro-ministro é Durão Barroso". Para provar que saber "é diferente" de conhecer, Neves Vicente omitiu o que na segunda frase. De facto, saber é igual a conhecer ou a conhecer que...

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Publicado por f.limpo.queiroz às março 2, 2008 09:41 AM

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