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setembro 16, 2007
Atomismo, acaso e liberdade em Epicuro, na óptica de Marx
A noção de acaso, ligada à de vazio inerente à doutrina atomista, é capital na filosofia do grego Epicuro, que teorizou o átomo como essência imutável, arkhé, e como existência material dotada de propriedades modificáveis, stoikheíon,segundo Karl Marx. O epicurismo baseia-se pois na contradição entre essência e existência, entre forma e matéria.
O átomo concebido como essência corresponde, de certo modo, a nosso ver, à vontade livre, coisa em si no sistema de Kant (eu numénico, que opera com autonomia sobre a existência, feita de átomos materiais). O próprio Deus, segundo Epicuro, é feito de átomos mais pequenos e mais finos.
«53. Pode-se dizer que na filosofia epicurista o imortal é a morte. O átomo, o vazio, o acaso, o arbitrário e a composição são, em si, a morte. » (…)
«Sabe-se que para os epicuristas o acaso é a categoria soberana. » (Karl Marx, As filosofias da natureza em Demócrito e Epicuro, Editorial Presença, 1972, pag. 79).
«O átomo só tem para Demócrito o significado de um stoikheíon, de um substracto material. A distinção do átomo como arkhé e o átomo como stoikheíon, entre o átomo como princípio e o átomo como elemento, pertence a Epicuro; e o que se segue demonstrará a importância desta distinção. »
«A contradição entre a existência e a essência, entre a matéria e a forma, que está contida no conceito de átomo é considerada como existindo no próprio átomo singular, pelo simples facto de lhe serem atribuídas qualidades. Através da qualidade, o átomo é alienado do seu conceito e simultaneamente é terminada a sua construção. O mundo sensível nascerá directamente da repulsão e dos conglomerados conexos de átomos qualificados. » (ibid 194)
«O facto de Epicuro isolar e objectivar a contradição no seu nível mais elevado, distinguindo o átomo que como stoikheíon, se torna a base do fenómeno, do átomo que, enquanto arkhé existe no vazio, constitui precisamente aquilo que o distingue de Demócrito no plano da filosofia, pois este só objectiva um desses aspectos. » (ibid, pag 196)
«É contraditório com a noção de átomo o ter quaisquer propriedades; pois, como afirma Epicuro, toda a propriedade é modificável, enquanto que os átomos não se modificam. Mas o atribuir-lhe essas propriedades não deixa de ser uma consequência necessária, pois na pluralidade dos átomos em repulsão, que estão separados pelo espaço sensível, devem ser imediatamente diferentes entre si e distintos da sua essência pura, isto é, devem possuir qualidades.» (ibid, pag. 179).
Marx considera Epicuro o «filósofo das luzes» da antiga Grécia. Porque combatia a predestinação, a astrologia e exaltava o acaso que oferece múltiplas vias por onde escorre a liberdade humana.
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Publicado por f.limpo.queiroz às setembro 16, 2007 11:23 AM