« 9 e 10 de Março: Pintor Óscar Casares, Pintor Seurat, Pontor Albert Durer, Joana e Hermafroditismo, De Juana Chaos, «Cadáver político» de Bush, Cavaco Silva | Entrada | 10 e 11 de Março: Buzinão em Montargil, Bush em Montevideu, Calle Marques de Montemor »

março 10, 2007

O empirista David Hume era também racionalista?


David Hume é classicamente definido como um empirista.

«Em suma todos os materiais do pensamento são derivados da sensibilidade (sentiment) externa ou interna: a mistura e a composição destes pertencem apenas à mente e à vontade. Ora, para me expressar em linguagem filosófica, todas as nossas ideias, ou percepções mais fracas, são cópias das nossas impressões (ou percepções) mais intensas.» (David Hume, Investigação sobre o Entendimento Humano, secção II, Edições 70, Lisboa; o negrito é nosso).

Sem dúvida, Hume é empirista na questão da origem do conhecimento. Mas, ao menos na questão do «eu», Hume é racionalista, nesta outra dimensão que é o problema gnosiológico da estruturação final do conhecimento . Joahnnes Hessen, no seu livro «Teoria do conhecimento», refere apenas três campos da gnosiologia: natureza do conhecimento, origem do conhecimento e possibilidade do conhecimento. Talvez haja mais um...

Hume escreveu:

«Deve haver uma impressão que origina toda a ideia real. Mas o eu, ou a pessoa, não é uma impressão; é aquilo a que supostamente se referem as nossas impressões e ideias...Ora, não há nenhuma impressão constante e invariável. A dor e o prazer, as paixões e as sensações sucedem-se umas às outras, nunca existindo todas em simultâneo. A ideia do eu não pode portanto, ter derivado de qualquer uma dessas impressões ou de qualquer outra; consequentemente, uma tal ideia não existe». (David Hume, A Treatise of human Nature, Oxford, Clarendon Press, 1978, Livro I, 4ªParte, Secção VI; o negrito é nosso).

Ao negar o «eu» que nos é sugerido pelas vivências empíricas, Hume é racionalista. Assim, o filósofo inglês é empirista, na origem do conhecimento, e racionalista, na modelação final deste, no que toca ao «eu» pelo menos.

É conveniente, portanto, que os professores de Filosofia em Portugal não se precipitem a cortar dogmaticamente como «erros» as frases dos alunos que refiram Hume como racionalista. As orientações de exame do 11º ano, para este ano de 2007, em Portugal, emanadas do GAVE do Ministério da Educação, parecem «afunilar» o problema do conhecimento para a tríade cépticos, Descartes (suposto racionalista) e David Hume (suposto empirista).

Há muito mais do que isto a abordar, nas aulas, no campo da teoria do conhecimento e é recomendável que os professores não se limitem às orientações de exame mas ensinem filosofia, com o sentido da amplitude infinita que caracteriza esta singular disciplina.

f.limpo.queiroz@sapo.pt

www.filosofar.blogs.sapo.pt

(Direitos de autor para Francisco Limpo de Faria Queiroz)

Publicado por f.limpo.queiroz às março 10, 2007 10:30 PM

Comentários

Comente




Recordar-me?