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January 03, 2005

Francisco Rodrigues e Jesús

Parece haver um sincronismo onomástico entre o nome composto Francisco Rodrigues e o nome Jesús. Eis alguns exemplos:

A) Em 1 de Outubro de 1948, faleceu em Lisboa o padre católico Francisco Rodrigues da Cruz, conhecido pelo povo como «o santo padre Cruz», membro desde 3 de Dezembro de 1940 da Companhia de Jesús.

B) Em finais da década de 80, faleceu em Portugal o teólogo jesuíta Francisco Rodrigues, membro da Companhia de Jesús.

C) Em 26 de Novembro de 1965, Francisco Martins Rodrigues e outros membros do CMLP (Comité Marxista-Leninista Português) realizam um julgamento «popular» e executam a tiro na mata de Belas, em Sintra, Mário de Jesús Mateus, um dos fundadores do referido comité tido por «provocador ao serviço da PIDE».

É deveras, curioso, que sob o mesmo nome - Francisco Rodrigues - se tenham desenvolvido personalidades políticamente quase antagónicas mas com um pendor ascético para o martírio, crítico das injustiças sociais.

O padre Francisco Rodrigues da Cruz, pacífico por natureza, admirador da ditadura reaccionária de Oliveira Salazar, dava aos pobres e esfomeados tudo o que podia e visitava os presos para consolá-los espiritualmente. Não era um teórico do catolicismo, um teólogo discursivamente brilhante, mas sim um homem de acção piedosa.

Francisco Martins Rodrigues, nascido em 21 de Novembro de 1924, foi um destacado funcionário e dirigente do PCP sob a ditadura fascista de Salazar. Teve a condição de delfim de Álvaro Cunhal, com quem fugiu do forte prisão de Peniche em 3 de Janeiro de 1960, e pouco tempo depois, sob o influxo das divergências entre a China de Mao e a URSS de Kruchov, abriu a reduzida brecha de uma dissidência orgânica «marxista-leninista», maoísta, no PCP, defendendo a passagem imediata à insurreição armada antifascista.

No período revolucionário de 25 Abril de 1974 a 25-26 de Novembro de 1975, Francisco Martins Rodrigues esforçou-se por a partir do cavalo leninista e filotrotskista da UDP /PCP (r), impulsionar o movimento operário e popular na senda da destruição do estado capitalista e da instauração de uma democracia «popular» tutelada pela pequena-burguesia «marxista-leninista».

Homem de acção, a sua incapacidade teórica como marxista genuíno ficou consagrada no livro de sua autoria «Anti Dimitrov», 1935-1985, meio século de derrotas da revolução».

Neste livro, oculta - como aliás 20 anos depois continua a fazer hoje na sua revista «Política Operária»- as críticas marxistas de Otto Ruhle, Anton Pannekoek e outros comunistas libertários ( da «ultraesquerda conselhista») ao leninismo, como sistema ditatorial de opressão sobre a classe operária, e a Lenine, «revolucionário burguês jacobino» que instaurou um capitalismo de Estado fascista, totalitário, com roupagens marxistas.

Algumas passagens do livro de Francisco M. Rodrigues mostram como o autor continua umbilicalmente ligado ao revisionismo do PCP, isto é, nos antípodas do pensamento operário autogestionário e marxista: «Contra o revisionismo, é forçoso defender a obra revolucionária de Staline, do partido Bolchevique e da Internacional até 1934 (pág. 210 de «Anti Dimitrov). Comentário nosso: Espantosa esta apreciação teórica de F. Rodrigues! Desde Março de 1921, a Rússia já não era uma democracia proletária com a repressão brutal dos conselhos de marinheiros em Kronstad pelo exército bolchevique, mas transformara-se numa ditadura anti-proletária da nova burguesia vermelha dirigida por Lenin, Stalin e Trotsky...

Francisco Rodrigues, revolucionário autoritário, filoleninista - é dificil classificá-lo como leninista pois vive num pequeno círculo sectário que nem sequer ousa participar no jogo parlamentar da democracia burguesa para «elevar o nível de consciência política das massas»- preconiza o martírio dos «revolucionários»: apoia a resistência islamista radical no Iraque nos seus atentados suicidas «contra o imperialismo norte-americano»! Convenhamos que estes actos nada têm de revolucionarismo proletário, são antes expressão do fanatismo nacionalista. Lenine condenou os atentados terroristas desligados do movimento de massas e neste campo Francisco Rodrigues não parece um bom discípulo de Lenine...

O que os leninistas - PCP, UDP, Política Operária...- temem e omitem veicular no seu discurso é a necessidade da auto-organização pacífica e democrática do proletariado em assembleias de fábrica, de bairro e de escola - os conselhos operários, de moradores e de estudantes- sem partidos políticos ou grupos estáveis dirigentes. Eles perderiam o «poleiro» entre as esquerdas, se isto sucedesse...


Publicado por f.limpo.queiroz às January 3, 2005 01:24 AM