novembro 18, 2009
O Uno é predicado, como sustenta Aristóteles?
Aristóteles criticou Platão e os Pitagóricos por considerarem o Uno como uma substância, isto é, algo que subsiste por si, de modo individualizado. Segundo Aristóteles, o Uno não é substância nem é género (um grupo que engloba várias espécies de substâncias individuais; por exemplo: género animal, género figura geométrica, género cor) mas sim um predicado universal .
«Devemos investigar, do ponto de vista da substância (ousía) e da natureza, que tipo de realidade possui o Uno de acordo com o tratamento que fizemos na Discussão das Aporias, o que é a unidade e como há-de entender-se; se o uno, em si, é uma certa substância, como disseram os Pitagóricos primeiro e Platão depois, ou se, mais precisamente, há alguma natureza que lhe serve de sujeito, e como convém explicar isso para maior claridade, e mais precisamente segundo o proceder dos filósofos da natureza. Algum destes, com efeito, afirma que o Uno é Amizade, outro afirma que é o ar, ouro que é o Indeterminado (apeiron). Pois bem, se – como se disse nos tratados acerca da substância e acerca do que é – nenhum universal pode ser substância, se considerado em si mesmo não pode ser substância ao modo de unidade separada da pluralidade (já que é algo comum), é evidente que tampouco pode sê-lo o «uno»: com efeito, «algo que é» e «uno» são os predicados mais universais. Por conseguinte, nem os géneros são naturezas e substâncias separadas das demais coisas, nem «uno» pode ser um género, pelas mesmas causas pelas quais tampouco pode sê-lo «o que é» e a substância. »(Aristóteles, Metafísica, Livro X, 1053b; o bold é nosso). (…)
Mas contradiz-se Aristóteles ao afirmar o seguinte:
«Mais precisamente, nas cores, o uno é uma cor, por exemplo, o branco, e as demais parecem gerar-se sucessivamente a partir dele e do negro, e o negro é privação do branco, como o é também da luz a obscuridade (esta é, com efeito, privação da luz) de modo que se as coisas que são fossem cores, as coisas que são constituiriam um certo número, mas de quê? Evidentemente, de cores, e o uno seria algo que é uno, por exemplo, o branco.» (...)
«E igualmente, no caso dos sons, as coisas que são constituiríam um certo número de letras e o «uno» seria uma letra vocal»
(Aristóteles, Metafísica, Livro X, 1053b, 1054a; o bold é nosso).
«É pois evidente que em cada género, o uno é uma certa natureza, e que o uno não é substância de nenhuma delas, mas que, assim como no caso das cores há-de buscar-se o uno, como tal, em certa cor que é una, assim também o uno, como tal, no caso da substância, há-de buscar-se em certa substância que é una.» (Aristóteles, Metafísica, Livro X, 1054a; o bold é nosso).
O branco não é uma substância, para Aristóteles, mas um acidente, uma qualidade. Aristóteles achava impossível o branco existir em si mesmo: só existe na camisa branca, na parede branca e noutros objectos brancos, ou na mente do homem por abstracção. No entanto, branco é uma essência – uma qualidade comum a vários entes, neste caso, a vários acidentes ou particularidades acessórias das coisas – e ao conceber branco como fonte das cores, isto é como essência primordial em relação às essências de azul, amarelo, vermelho, verde, roxo e outras cores, Aristóteles está a adoptar uma posição idêntica à de Platão: preenche com um conteúdo substancial a forma vazia do Uno. De facto, o Uno é aqui concebido como essência (branco), ou seja, componente principal da substância ou conteúdo do acidente. É concebido como um sujeito eidético, um suporte de todas as cores, não apenas um predicado.
Uno é uma definição formal – por isso, é um universal acima dos géneros, isto é, uma determinação comum a tudo o que existe e se pensa: Deus é uno, a Terra é una, o calor é uno, o verde é uno, a árvore em geral é una, esta amendoeira é una, este «agora» é uno. Ao postular que uno é branco e não amarelo ou azul, Aristóteles rompe esse formalismo e transforma-o em essencialismo primigénio: «o uno é a essência primeira dentro de cada género». Certamente branco é duplamente uno, se aceitarmos que é a união de todas as cores - essencialismo primigénio- , mas nem por isso azul ou amarelo deixam de ser, em si mesmos, algo que é uno. Aristóteles admite que a espécie branco é «uno» mas nega que o género côr seja uno, ao afirmar acima «que nem «uno» pode ser um género, pelas mesmas causas pelas quais tampouco pode sê-lo «o que é» e a substância. » (Aristóteles, Metafísica, Livro X, 1053b). Isto é, em rigor, uma incoerência: acentua o significado de uno como espécie matriz de outras espécies - sentido intensivo - e e nega-o como género,aglomerado de espécies - sentido extensivo e holístico.
O Uno não é somente predicado, como diz Aristóteles. É a própria substância do ponto de vista formal, é o contorno geral de cada substância e o conteúdo dela enquanto indeterminado. O Uno é, pois, sujeito e predicado.
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novembro 14, 2009
São Tomás de Aquino: O entendimento prático move a vontade
Na Suma de Teologia, uma das grandes obras da filosofia de todos os tempos, São Tomás de Aquino coloca milhares de questões e responde a elas, entre as quais a da relação entre a vontade e o entendimento.
No texto seguinte, deparamos com dois sentidos da palavra potência: capacidade actual, poder actual (exemplo: a razão é uma potência da alma); possibilidade de vir a ser ou capacidade futura (exemplo: estar em potência para ; nesse sentido, a semente é uma árvore em potência).
«Ora bem, detecta-se que uma potência da alma está em potência para coisas diversas de dois modos: um enquanto ao fazer e não fazer; o outro, enquanto ao fazer isto ou aquilo. Por exemplo, a vista umas vezes vê em acto e outras vezes não vê; e umas vezes vê branco e outras vezes vê negro. Por conseguinte, necessita-se de algo que se mova para duas coisas: para o exercício e uso do acto e para a determinação do acto. A primeira procede do sujeito, que umas vezes se encontra a operar e outras a não operar; a outra procede do objecto, e por ela se especifica o acto.
«Pois bem, a moção do sujeito procede de algum agente. E como todo o agente opera por um fim, como se demonstrou (questão 1, artigo 2), o princípio de esta moção procede do fim. Por isso, a arte a que pertence o fim move com os seus ditames a arte a que pertence o que é para o fim: Como a arte de navegar dita a de construção, segundo se diz em II Física (Aristóteles). Ora bem, o objecto da vontade é o bem comum, que tem razão de fim. » (…)
«Por sua parte, o objecto move determinando o acto, como um princípio formal, que especifica a acção em coisas naturais, de igual modo como o calor ao aquecer. Ora bem, o primeiro princípio formal é o ente e o verdadeiro universal, que é o objecto do entendimento. Logo, com este tipo de moção, o entendimento move a vontade, apresentando-lhe o seu objecto. (…)»
«Do mesmo modo que a imaginação de uma forma não move a vontade sem a estimação de conveniente ou nocivo, tampouco a apreensão do verdadeiro move sem a razão de bom e apetecível. Por isso, o entendimento especulativo não move, mas sim o entendimento prático, como se diz em III De anima.»
(Santo Tomas de Aquino, Suma de Teologia II, Parte I-II, pags 124-126, Cuestion 9, Artículo 1, Biblioteca de Autores Cristianos, Madrid, 2006; o bold é nosso)
Assim, o motivo, isto é, a força que move a vontade é o entendimento prático, não o entendimento especulativo ou filosófico. Este entendimento prático tem, obviamente, participação das sensações, dos sentimentos. É uma função intelectual que se banha no mundo sensorial.
Mas também o objecto é motivo, isto é, move, como causa final, a vontade e o entendimento prático que a precede no acto.
Assim, segundo São Tomás, os motivos da acção residem em dois pólos: o motivo ou motor interno, isto é, o par entendimento prático-vontade; o motivo ou motor externo, o objecto, que actua como causa final e confere especificidade à acção (exemplo: a maçã que desejamos comer; a mulher que desejamos beijar).
Que quer dizer São Tomás com a frase «o primeiro princípio formal é o ente e o verdadeiro universal, que é o objecto do entendimento»? O objecto (como por exemplo: maçã, moeda de oiro) é o ente? Ou este é o sujeito cognoscente e actuante? Ou são ambos, o objecto do lado de fora, e o entendimento do lado de dentro, em simultâneo, o primeiro princípio formal da acção, sendo a vontade um meio para a concretizar?
A palavra ente, que designa «o que é», é polissémica no vocabulário de São Tomás e de diversos filósofos.
«Como en los ejemplos aducidos, también el ente se predica de diversas maneras. Sin embargo, todo ente se dice por orden a uno primero. Pero esto primero no es el fin ni la causa eficiente, como en los ejemplos citados, sino el sujeto. Pues unos se dicen entes o que son porque tienen el ser por sí, como las sustancias, que se dicen entes principal y primariamente. Otros, porque son pasiones o propiedades de la sustancia, como los acidentes propios de cada sustancia. Algunos se dicen entes porque son vía para la sustancia, como las generaciones y los movimientos. Otros se dizen entes porque son corrupciones de la sustancia» (Santo Tomás de Aquino, Comentario a la «Metafísica» de Aristóteles, in Clemente Fernandez S.I., Los filósofos medievales, II, Biblioteca de Autores Cristianos, Madrid, pag 726; o bold é nosso).
Assim cadeira e homem são entes, mas côres branca e azul, quente e frio, alegria e tristeza, nascimento e morte, ascensão e descida são também entes. Há diversos graus de entidade: o ente em grau supremo é Deus, porque é eterno, incriado, imóvel, pensamento puro, incorruptível, autosuficiente, acto puro, sem magnitude física. Em todos os outros entes, na medida em que há mistura de não ser, há um défice de entidade real. A tristeza, por exemplo, é um ente de razão porque consiste na privação ou défice da alegria.
«Es de saber, con todo, que esos modos de ser se pueden reducir a cuatro. Uno de ellos, que es el más exiguo, existe sólo en la razón, y es la negación y la privación, de las cuales decimos que son, porque la razón las trata como si fuesen unos entes, al afirmar o negar algo de ellas. » (Santo Tomás, ibid, pag 727; o bold é nosso).
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novembro 13, 2009
R.M.Hare se equivoca sobre los sentidos que Platón atribuyó a «Es»
Richard M.Hare atribuye a Platón una incapacidad de distinguir entre el «es» que significa existencia y el «es» que significa predicación – es decir, pertenencia a una esencia
«El falso objecto de creencia “no es” lo que pretende ser; y Platón, debido a que no distinguió en un principio entre el “es” que significa lo mismo que “existe” (como en «el Imperio Britanico ya no es») y el «es» que expresa predicación (la cópula, como «él es alto») se encuentra en un aprieto de si cuando tenemos falsas creencias, estamos viendo o captando lo que “no es”, y por consiguiente si, cuando hacemos esto, no tenemos en absoluto cosa alguna en la mente. Pero si no tenemos nada delante de la mente, ¿cómo podemos estar creyendo algo? El resultado parece ser paradójico, que no podemos tener falsa creencia.» (, R.M.Hare, Platón, Alianza Editorial, pag 61; el bold es nuestro).
En la República de Platon se aborda el enunciado verdadero como el que designa lo que es:
«Sócrates- ¿No existirá, pues, un enunciado verdadero y un enunciado falso?
Hermógenes- Desde luego.
Sócrates-¿ Y no sería verdadero el que designa las realidades como son y falso el que las designa como no son?
Hermógenes- Sí.
Sócrates- ¿ Es portanto posible decir en un enunciado lo que es y lo que no es?
Hermógenes- Ciertamente.
(Platón, Crátilo, in Apologia de Sócrates, Ménon, Crátilo, Alianza Editorial, pag 130)
Designar las realidades como son es función de los verbos ser, pertenecer y otros («es», «fue», «será», «pertenece a», etc) que predican, exprimen una relación entre el sujeto y un otro objecto o calidad, exprimen un como – el «es» aqui tiene sin duda, un significado de cópula, que une el sujeto a una otra entidad, especie o género. Y la cópula el el eje de la verdad de la proposición.
Decir lo que es, es decir la verdad. Verdadero es decir lo que es. Y esto es esencia y existencia.
Para Platón, el «es» designa la forma estable, sin movimiento – esencia que existe al máximo grado – y la pertenencia a esa esencia (género o especie). Y el «no es» designa el movimiento y la no pertenencia a la forma inmutable.
En La República, Platón escribió:
«-Luego si la ciencia tiene por objecto el ser, y la ignorancia el no-ser, es preciso buscar, respecto a lo que ocupa el medio entre el ser y el no-ser, una manera de conocer que sea intermediaria entre la ciencia y la ignorancia, suponiendo que la haya.
- Sin duda.
- ¿ Sostendremos que hay algo llamado opinión?
- Y ¿como no?
- ¿ Es una facultad distinta de la ciencia, o bien la misma?
- Es distinta.
(...)
-La ciencia, ¿no tiene por objecto lo que existe para conorcelo como existe?
-Sí.»
(Platón, La República o El Estado, 477-478, Austral, pag 250-251; el bold es nuestro)
Que es el ser, de que Platón habla? Es lo que es, lo que existe. Es esencia o forma en su existencia suprasensible ( el Bien, el Bello, el Triangulo, el Justo, el Círculo, etc).
En el fondo, ser significa forma y no-ser significa sin forma. La ignorancia es lo que no tiene forma, el no ser. Por eso, la ignorancia «no es»: se traduce en una existencia negativa sin esencia, un movimiento de los sentidos, de la sin razón. El hecho de que el error «no es» no significa que no exista error - porque el error está en la opinión - sino que no existe en la region de la verdad, el suprasensible, el contenido que vehicula. En el ser, la esencia-forma pesa más que la existencia-lugar, es decir, «el es» menta más la forma que el lugar, aunque abarca ambos. En el no-ser, la existencia-lugar pesa más que lo sin forma, es decir, el no ser expresa más el lugar que la no forma, aunque se compone de ambos. Son contradictorios.
Sin duda, al revés de lo que postula R.M.Hare, Platón distinguió entre «es» (predicación, inclusión o exclusión de A en B) y «lo que es» (ser, existencia de formas). Imposible que no lo hiciera. Además, Pármenides había ya hecho esa distinción: «El ser es...no fue en el pasado, y no será, pues es ahora todo a la vez, uno, continuo » , postulado ontológico-existencial puro. Y atribuye forma esférica al ser (postulado esencial) :«Pero, puesto que su límite es el último, es completo por doquier, semejante a la masa de una esfera bien redonda, igual em fuerza a partir del centro por todas partes » (Fragmento 8, v.42, Simplício, Fís 146, 15). Entonces «es» significa, para Parménides, dos cosas distintas, la primeira un verbo, la segunda un sustantivo:
1) Existe.
2) Esfera llena, continua, inmóvil, no generada, inmutable, indestructible, inteligible.
Si la ciencia tiene por objecto lo que existe, - «lo que es» - para conocerlo «cómo existe» - «cómo es» - este modo supone el «es» predicado. El cómo necesita el puente del «es» entre la substancia individual y su espécie o género. El sustantivo necesita el verbo. Platón conocia los dos sentidos del término «es».
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